15 de janeiro de 2008

Um barquinho inteiro



Um barquinho inteiro. Com alguns buraquinhos. Mas inteiro. Segue em alto mar. Em direção à lua. Segue firme e forte remando, remando, remando. Sem medo. Sem culpa. Apenas remando, seguindo o fluxo do mar.

Mas aí, sem esperar, a maior onda do dia derruba o barquinho, quase tirando a esperança de chegar ao seu destino. Mas aí, também sem esperar, o barquinho decide ir em frente. Não vão ser pequenos obstáculos que irão fazer o barquinho, tão inteiro e preparado, desistir de chegar.

Então ele continua remando, remando, remando. Apenas remando, seguindo o fluxo do mar. Até que, quase sem esperar, outra onda derruba o barquinho. E ele cai dessa vez com um impacto maior.

O barquinho então decide tomar mais cuidado com o mar, afinal, muitas vezes ele é traiçoeiro. Assim ele segue cuidadoso, atencioso, ainda querendo chegar. Esse barquinho nunca desistiu fácil. Foi teimoso, sempre teimoso.

Até que um dia, as ondas não pararam de derrubar o barquinho. Querem fazê-lo desistir. E o barquinho, cansado de ser derrubado, decide parar um pouco para refletir que caminho seguir.

Não precisou de muito tempo para que ele tivesse a noção exata do que o esperava. Um mar turbulento, ora calmo, ora agitado. Dificilmente o barquinho chegaria ileso, sem arranhões, ao seu destino final.

Então, o barquinho decide tomar outro caminho. Mais calmo e mais tranqüilo. E segue seu rumo. Ainda inteiro, como tem que ser.

Assim é a vida. Gosto dessa história do barquinho porque identifico as pessoas nele. Somos um barquinho, uns mais e outros menos inteiros. Seguimos o fluxo da vida, mesmo tendo, muitas vezes, que mudar a direção. A direção, não o objetivo.

A felicidade é o objetivo. A direção, ou melhor, as direções são as nossas escolhas. Fazemos um milhão delas por dia. Decidimos o que vamos comer no almoço, o que vamos fazer com nosso trabalho e, também, o que faremos com nossos corações.

Esse último talvez seja o mais difícil. Mas eu arriscaria dizer ser o mais importante. Ninguém vive sem amor, sem alguém pra dividir a vida, os pensamentos, os medos, as alegrias. Ninguém consegue seguir sozinho. É sempre mais difícil não ter com quem deitar e rir do mundo ou mesmo chorar pelo mundo. Alguém que vai nos acolher, secar nossas lágrimas, apoiar nossos desafios e torcer para que eles dêem certo.

Alguém que vai ligar inesperadamente apenas para saber se está bem, se dormiu bem, se comeu bem ou se aquela dor de cabeça passou. Alguém que vai cantar pra gente, sorrir com a gente e brigar quando assim se fizer necessário. Alguém que vai cuidar da gente. Como se a gente fosse o maior tesouro da face da terra. E quer saber? A gente é.

E assim, você, eu e nossos barquinhos seguimos. Decidindo, escolhendo, caindo e levantando. Sempre com o mesmo objetivo, sermos felizes. E nós, ou melhor, eu e meu barquinho não desistimos nunca.

Mudamos a direção, trocamos o caminho, mas um dia chegamos. Porque somos inteiros, completos e preparados. Somos corajosos e intensos. Podemos cair diversas vezes, mas sempre levantamos com a absoluta certeza que a lua não está tão longe quanto parece.

Está logo ali. Na padaria, na esquina, na sinuca, na festa do final de semana. Um dia a gente encontra a lua. E aí, se tudo der certo, a gente para de remar.

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