11 de janeiro de 2010

Sandra e a volta ao mundo

É mais ou menos como o dia em que Sandra libertou o grito preso. Aquela angústia trancada, ferrada. É mais ou menos como quando tirou o curativo e abismou-se: a ferida está curada, cicatrizada. Como quando algo tranca a passagem em um corredor pequeno. É preciso correr, mas você apenas caminha. Como quando o vidro do pepino não abre. Você quer se alimentar e matar o desejo, mas emperrou.

Feito dor no joelho que não deixa caminhar, feito dor de cabeça que não deixa pensar e feito, principalmente, dor de dente que não deixa abrir a boca pra reclamar, reivindicar ou simplesmente sorrir.

Feito esmalte vencido que deixa aquelas bolinhas na unha, tal como conta que chega inesperada cobrando aquela dívida que foi feita, vejam só: inesperadamente.

Feito refrigerante sem gás que enjoa o estômago, chuva que impede de correr no parque e até aquele pijama velho que você sente vergonha de desfilar na sala para o novo amor.

Sandra resolveu chutar as peças do caminho,quebrar o vidro do pepino, esquecer a dor no joelho, enterrar a dor de cabeça e arrancar o dente. Comprou novo esmalte, rasgou a conta, trocou o refri pelo suco, inventou o sol e ignorou o pijama. Depois disso... ela saiu correndo do quarto, se olhou no espelho com ar aliviado. Não disse nada.

Sorriu.

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