No carro
Depois de cortar o pé o menino volta pra casa aos berros. A mãe, preocupada, coloca o garoto no carro e corre para o hospital mais próximo. No meio do trajeto...
- Luiz Henrique, o Felipe cortou o pé.
- Como assim, Clarice?
- Cortou o pé, Luiz Henrique. O pé, aquele pedaço cheio de dedos logo abaixo da canela, ta lembrado?
- Não começa, Clarice!
- Ora como assim. Cortou o pé jogando bola. Pisou num amontoado de cacos e cortou o pé.
- E como ele está?
- Está ótimo, dando risada do dedinho que ficou pendurado. Que pergunta, Luiz Henrique!
- Como assim dedinho pendurado, Clarice! Ele arrancou o dedo do pé?
- Não, Luiz Henrique! É modo de falar. E se tivesse pendurado, seria dedo de onde se ele machucou o pé?
- Mas foi grave?
- Ele está respirando, Luiz Henrique!
- Está sangrando muito?
- Não sei. Enrolei uma toalha no pé.
- E a toalha está com sangue?
- Luiz Henrique!
- Ta bom, Clarice! Para onde está levando o menino?
- Pro cinema, Luiz Henrique!
- Pro cinema?
- Pro hospital criatura!
- Sim, mas qual?
- Aquele da avenida Ipiranga, o azul piscina.
- Azul piscina?
- Azul, Luiz Henrique! Azul!
- Aquele perto do Bar do bigode?
- Que bigode, Luiz Henrique?
- Aquele bar que serve sopa barata de madrugada, Clarice.
- E eu lá vou comer sopa em bar de madrugada?
- É um ponto de referência, Clarice!
- Pelo visto bem conhecido seu, Luiz Henrique!
- Todo mundo sabe que o bar tem sopa barata de madrugada.
- E desde quando você gosta de sopa?
- Como ele está, Clarice?
- Chorando!
- Vou sair daqui e encontro vocês no hospital. Fica perto do quê, afinal?
- Do clube de mulheres, aquele lilás com a porta verde, onde vende cerveja baratinha.
- Clarice!


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