7 de outubro de 2009

No carro


Depois de cortar o pé o menino volta pra casa aos berros. A mãe, preocupada, coloca o garoto no carro e corre para o hospital mais próximo. No meio do trajeto...

- Luiz Henrique, o Felipe cortou o pé.

- Como assim, Clarice?

- Cortou o pé, Luiz Henrique. O pé, aquele pedaço cheio de dedos logo abaixo da canela, ta lembrado?

- Não começa, Clarice!

- Ora como assim. Cortou o pé jogando bola. Pisou num amontoado de cacos e cortou o pé.

- E como ele está?

- Está ótimo, dando risada do dedinho que ficou pendurado. Que pergunta, Luiz Henrique!

- Como assim dedinho pendurado, Clarice! Ele arrancou o dedo do pé?

- Não, Luiz Henrique! É modo de falar. E se tivesse pendurado, seria dedo de onde se ele machucou o pé?

- Mas foi grave?

- Ele está respirando, Luiz Henrique!

- Está sangrando muito?

- Não sei. Enrolei uma toalha no pé.

- E a toalha está com sangue?

- Luiz Henrique!

- Ta bom, Clarice! Para onde está levando o menino?

- Pro cinema, Luiz Henrique!

- Pro cinema?

- Pro hospital criatura!

- Sim, mas qual?

- Aquele da avenida Ipiranga, o azul piscina.

- Azul piscina?

- Azul, Luiz Henrique! Azul!

- Aquele perto do Bar do bigode?

- Que bigode, Luiz Henrique?

- Aquele bar que serve sopa barata de madrugada, Clarice.

- E eu lá vou comer sopa em bar de madrugada?

- É um ponto de referência, Clarice!

- Pelo visto bem conhecido seu, Luiz Henrique!

- Todo mundo sabe que o bar tem sopa barata de madrugada.

- E desde quando você gosta de sopa?

- Como ele está, Clarice?

- Chorando!

- Vou sair daqui e encontro vocês no hospital. Fica perto do quê, afinal?

- Do clube de mulheres, aquele lilás com a porta verde, onde vende cerveja baratinha.

- Clarice!

0 comentários: